A belas e as vuvuzelas
Por Thais S. Moya
A primeira fase da Copa do Mundo de futebol está chegando ao fim. Alguns resultados inesperados colocaram seleções com menos tradição no esporte, as chamadas “zebras”, na fase eliminatória da competição, fato que tem repercutido incessantemente na mídia.
Além da “zebra”, há outra sensação nessa Copa: A vuvuzela. Uma corneta oriunda do país que sedia os jogos, a África do Sul, que marca presença em todos os estádios, fazendo o que se propõe a fazer, ou seja, barulho, muito barulho. O ruído da vuvuzela lembra um poderoso enxame de abelhas e @s torcedor@s têm desempenhado um fôlego invejável durante toda a partida, quase sem interrupções.
No início ela foi bem recebida, goleou em várias pautas midiáticas. Entretanto, com o passar dos dias, as mesmas começaram a rejeitar e reclamar das vuvuzelas, a ponto da FIFA ter que declarar que não impedirá o uso delas, como haviam solicitado a imprensa e as comissões técnicas.
Irritantes ou não, elas fazem parte da cultura sul-africana e talvez exatamente por isso esteja incomodando tanto. Ora, quem vai a um jogo de uma competição mundial esperando silêncio? Um estádio de futebol, aqui, na Europa ou em qualquer lugar do mundo é barulhento.
Infelizmente, parece-me que não é o barulho que incomoda, mas quem faz o barulho. Por trás da rejeição à vuvuzela soa-me um coro alto e em bom som rechaçando a cultura africana, insinuando que nela falta civilidade até para torcer em uma partida de futebol. Há séculos, teorias raciais imputam aos povos negros a incapacidade de serem civilizados (Young, 2005) e tais afirmações foram e estão sendo assimiladas como verdade pelas sociedades modernas.
Para aquel@s que dirão que estou exagerando, expo nho outro incomodo que esta Copa tem me provocado desde a sua estréia e que possui intensa relação com a aversão às vuvuzelas: As tradicionais matérias sobre as mulheres bonitas das torcidas.
Eu acompanhei as matérias do gênero dos principais meios televisivos e virtuais desde o início da Copa e para minha surpresa (?) quase não há mulheres negras e africanas nas seleções de beldades publicadas (Vide, por exemplo: http://placar.abril.com.br/copa-do-mundo/selecao-brasileira/galeria-de-fotos/as-mais-lindas-torcedoras-da-copa.html). Não é, no mínimo, um contra-senso a ausência dessas mulheres, tendo em vista que os jogos estão sendo realizados no continente africano? Mas sabe o que é pior? Tal fato condiz com o senso comum vigente, ou seja, a beleza negra é invisível ou irreconhecível.
A Copa do Mundo na África do Sul esta escancarando cotidianamente nosso racismo institucional, assimilado e reproduzido em nossas subjetividades, práticas e discursos. Ou seja, o racismo ensinado nas piadas ao redor da mesa de nossas casas, discipulado e pregado nas igrejas, proferido e vivenciado no ambiente escolar, repaginado e materializado nas universidades e, conseqüentemente, nos ambientes profissionais mais diversos.
Portanto, não é difícil entender por que um@ jornalista ou fotógraf@ não consegue perceber a beleza negra diante del@, quando sabemos que por toda a sua vida as instituições que @ cercaram discursaram um padrão de beleza eurocêntrico e excludente.
Resta torcer para que os olhos do mundo voltados para a África por mais de um mês consiga nos sensibilizar e incomodar a ponto de estabelecer alguns diálogos e meios de desconstruirmos os aparatos e as normas que hierarquizam e discriminam aquel@s que estão à margem do padrão estabelecido.